O dia 08 de março foi escolhido para celebrar o Dia Internacional da Mulher, mas se engana quem acha que o momento é só comemorativo. Isso porque a data, muitas vezes subestimada, pede reflexão. Portanto, trata-se de uma oportunidade para encararmos problemas antigos que nossa sociedade sustenta.

Em 2020, uma mulher foi morta a cada dois dias em São Paulo. A princípio, pode-se interpretar os números como reflexo do isolamento social, que levou mulheres a conviver de forma ininterrupta com seus agressores. Entretanto, em uma visão ampla, o problema extrapola em muito o período de isolamento. É reflexo de uma desigualdade de gênero tão normalizada que, por vezes, passa despercebida.

A desigualdade não se manifesta somente através da violência – a violência é a consequência dela. É visível através de pequenos atos cotidianos que, perpetuados através do comportamento e aceitação da sociedade, deslocam a mulher para uma posição de inferioridade.

O papel social da mulher

Não faz tanto tempo que peças publicitárias reduziam o papel feminino ao de cuidadora da casa e submissa ao marido, ou objetificavam mulheres para consumo do gênero masculino. Propagandas de cerveja são, historicamente, um claro exemplo disso, relacionando o consumo do produto às chances de também “consumir” garotas jovens e bonitas. Apenas em anos recentes, com o tema ganhando visibilidade, notou-se uma preocupação com a representação feminina na publicidade que não incorra em um comportamento machista.

No mercado de trabalho não é diferente, e a desigualdade de gênero ganha novos nuances quando analisada pela ótica do meio corporativo. O Código Civil de 1916, que só foi revogado em 2002, previa que as esposas somente poderiam trabalhar com a autorização de seus maridos. Esta autorização poderia ser revertida sem grandes burocracias. Tal determinação somente deixou de surtir efeito com a promulgação do Estatuto da Mulher Casada, em 1962. Claro que esta possibilidade tardia em se permitir o livre acesso da delas ao mercado de trabalho traria consequências, que perduram até hoje.

Em 2019, por exemplo, o IBGE apontou que, ainda que 51,5% da população total no país fosse feminina, apenas 38% das mulheres possuíam cargos de chefia, contra 62% de homens. Em dados divulgados pelo Insper em parceria com a Talenses na mesma época, os números mostraram que 18% das empresas possuem como CEOs do sexo feminino. Esses dados são reflexo da crença enraizada de que a mulher não possui potencial de liderança – afinal, raramente é vista nessa posição.

A profissional que é ou planeja se tornar mãe carrega um estigma ainda maior: o de que não será capaz de gerir sua vida pessoal e profissional com sucesso, deixando a maternidade afetar o trabalho e, por isso, sendo preterida para vagas de emprego.

Mulheres são as primeiras a deixar mercado de trabalho

Na pandemia, a discrepância entre os gêneros ganhou novos contornos. As mulheres, que em boa porcentagem se dividem em duplas jornadas – trabalho remunerado e o chamado “trabalho invisível” de cuidar da casa e dos filhos – foram as primeiras ejetadas do mercado de trabalho. Com crianças em casa, 8,5 milhões deixaram o mercado no terceiro trimestre de 2020 segundo o IBGE, e devem ser as últimas a se recolocarem. Em situação de crise econômica, recomeçando do zero sua trajetória em busca de trabalho, enfrentam ainda mais obstáculos para ter liberdade financeira.

Dentro deste contexto, fica evidente que casos de feminicídio são um latente reflexo de uma sucessão de opressões enfrentadas pelas mulheres, seja dentro de sua casa, de seu trabalho ou através das representações midiáticas. Uma sociedade que privilegia homens e enxerga a mulher como sexo frágil faz crer, como consequência, que a mesma não é um sujeito de direitos. Esta construção desigual e binária do papel dos gêneros serve como base de todas as formas de violência e privação contra o sexo feminino.

É importante ainda que se encare cada recorte da violência de gênero de forma interseccional, pois mulheres de diferentes etnias, classes sociais e orientações sexuais estão sujeitas a diferentes tipos de violência. Mas suas experiências inevitavelmente se cruzam em algum momento, nem sempre de forma positiva: somente em 2020, o resultado foi um caminho sem volta para 179 mulheres no Estado de São Paulo.

Artigo de Marcela Ruiz Cavallo.

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